segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Vídeos bloco Deleuze/Guattari


https://www.youtube.com/watch?v=jXi8eNHlSM4
https://www.youtube.com/watch?v=hUj-UmEvITE
http://www.youtube.com/watch?v=Bkvqrta5mnw

Outro trabalho MB


ROBERTA DE ARAÚJO LANTYER DUARTE

A SUBJETIVIDADE E A FORMAÇÃO DA LOUCURA DE LAURA NO CONTO “A IMITAÇÃO DA ROSA”, DE CLARICE LISPECTOR.


O CONTO E LAURA
No conto “A imitação da rosa”, publicado em 1960, no livro “Laços de Família”, Clarice Lispector mostra o processo de formação da “loucura” de Laura. Laura é uma dona de casa que acabara de passar por um tratamento a base de choques insulínicos (que era comumente utilizado em pacientes esquizofrênicos).
O texto mostra a rotina de uma mulher submissa ao marido, Armando, e ao autoritarismo de Carlota, sua amiga.  Uma mulher que estava mentalmente doente, mas que “agora estava de novo ‘bem’” e voltaria a sua rotina modesta e “à sua insignificância reconhecida”, de completa desatenção. Seu rosto era modesto, suave, tudo nela era castanho, sua pele, seu cabelo, seus olhos, afinal: “Ter cabelos pretos ou louros eram um ex­cesso que, na sua vontade de acertar, ela nunca ambicionara.”.
Laura era uma mulher que vivia sem excessos. Buscava a perfeição, tinha um gosto pelo método, pela limpeza e pelo detalhe e “horror a confusão”. Laura era também um pouco lenta e cuidadosa. Ela “nunca ambicionara senão ser a mulher de um ho­mem” e nesta ideia se inclui passar-lhe as roupas e atendê-lo no que fosse necessário e, além de tudo, dar-lhe um filho – objetivo que ela não conseguira alcançar e que lhe deixara com uma sensação de fracasso, ofensa.
Laura, recém “curada” de sua doença, seguia o tratamento que seu médico que receitara: tomava um copo de leite após todas as refeições para evitar a ansiedade. Esta ação, segundo o médico, devia ser feita sem a preocupação, pois ela deveria fazer tudo natural e suavemente, sem ansiedade, para que se  “curasse” definitivamente. Em meio a ansiedade de tomar obrigatoriamente seus copos de leite naturalmente, Laura se apaixona pela beleza das rosas que havia comprado na feira. A partir de agora Laura luta para não entrar novamente em estado de “loucura”, o que será impossível.

A MENINA LAURA
O que faz com que uma mulher desenvolva um comportamento como o de Laura? Como se forma a subjetividade de uma mulher como Laura? Vamos pensar nestas questões a partir de algumas ideias de Freud.
Em primeiro lugar é preciso pensar como esta mulher desenvolveu sua subjetividade enquanto criança, menina. Pensando na formação do Édipo a partir do livro de Nasio, “Édipo – O complexo do qual nenhuma criança escapa” e, mais especificamente, do capítulo dois – “O Édipo da Menina”, podemos dizer que processo do Complexo de Édipo da menina é diferente e mais lento que o do menino, visto que, na menina existe o período “pré-edipiano”, quando ela é como o menino e tem a mesma sensação de poder fálico e sexualiza a mãe; depois ela passa pelo “tempo de solidão”, quando ela percebe o seu corpo como diferente do corpo do menino, percebe o pênis do menino; neste momento a menina tem a sensação de que não detém o poder que outrora acreditava possuir; “... ela nota que saiu perdendo, e sente esse fato com desvantagem e razão para inferioridade” (FREUD, 1924, p. 211/212), quem detém o falo na verdade é o menino, então, ela se sente enganada pela mãe por ter lhe feito acreditar que possuía o falo, tendo o que Nasio chama de ‘dor da humilhação’ - quando a menina “se recente de uma privação”, ao contrário do menino, que “vivia a angústia de ter a perder”. Após esta fase a menina passa pelo “tempo do Édipo”, o qual, enfim, sexualiza o sexo oposto, seu pai. Neste momento a menina, ressentida com a mãe, quer que o pai lhe dê o seu falo; tendo seu desejo negado, parte para a tentativa de ser o falo do pai e, paralelamente, admira o poder de sedução da mãe, sofrendo mais uma recusa por parte do pai, a menina resolve o Édipo com o desejo de ser o pai, segundo Nasio: “Eis por que digo que a dessexualização do pai é, no fundo um luto: a menina chora o pai sexualizado e o faz reviver dessexualizado nela” (NASIO, 2007, p. 57)
Todo este processo se refere à formação de uma neurótica “normal”. Para Laura, provavelmente, o complexo não tomou estes mesmos caminhos. Analisando sob este prisma podemos sugerir que, talvez, o complexo de Édipo de Laura fora interrompido antes que se pudesse fechar o círculo. Laura provavelmente não resolveu o Édipo, ela não conseguiu superar a “dor da humilhação”, se sentindo inferiorizada diante do Falo masculino, criando uma submissão não só ao pênis, mas ao que este Falo representa, e que explica a sua submissão a Carlota, autoritária, como se Carlota também possuísse o Falo o qual ela foi privada. É possível pensar que, após entrar no Édipo e sexualizar o pai e, após as renúncias, provavelmente muito severas deste pai, esta menina, ao invés de seguir com o complexo e finalizar o Édipo, tenha voltado à fase anterior, de dor pela humilhação de ter sido enganada.
Mas eu me pergunto: para onde foi esta dor, esta agressividade? Bem, uma possibilidade seria que esta menina se rebelasse contra a mãe “mentirosa” e se tornasse uma pessoa agressiva. Mas isto não aconteceu com Laura, ao contrário, ela não demonstra nenhum tipo de agressividade e até “também tomava cuidado para não cacetear a empregada que às vezes continha a impaciência e ficava um pouco malcriada, a culpa era mesmo sua porque nem sempre ela se fazia respeitar.”. Desta forma, suponho que a relação de Laura com sua mãe fosse de amor excessivo, esta mãe, provavelmente, não lhe deu espaço para a revolta, pois como mostra Freud em “O mal-estar na civilização”, pensando em “Psicanálise e personalidade total” de Franz Alexander, que retoma os estudos de Aichhorn:
O pai ‘brando e indulgente além da conta’ favorece na criança a formação de um Super-eu demasiado rigoroso, porque, sob a impressão do amor que recebe, esse filho não terá outra alternativa para sua agressividade que não voltá-la para dentro. (FREUD, 1929)
Esta agressividade de Laura, voltada para dentro, pode explicar o seu sentimento de culpa excessivo, visto que o seu Super-eu é, por demais, rigoroso. Por isso Laura tem esta obstinação pela perfeição, pelo detalhe, pela limpeza. Ela se acha inferior, humilhada pela falta do falo, então, procurava esta perfeição, imposta pelo Super-eu, em outros objetos. Como nas gavetas que “chegava a desarrumá-las para poder arrumá-las de novo” e, mais tarde, na beleza perfeita da rosa, que lhe devolverá ao estado de loucura.

LAURA E A CIVILIZAÇÃO
Sabendo da formação interrompida do Édipo de Laura, é possível pensar como se dá o que Freud chama de “Princípio de Prazer” e “Princípio de Realidade” na subjetividade de Laura.
Para Freud o “princípio do prazer” é o que rege a vida humana. O “princípio de realidade” vem para represar algumas pulsões do homem; é o que permite a vida em sociedade.  
Em uma mulher como Laura, com um Super-eu tão severo, o “princípio da realidade” sufoca o “princípio do prazer”, deixando as sua pulsões, todas, represadas. Este Super-eu faz com que Laura mantenha seu transtorno por limpeza:
Beleza, limpeza e ordem ocupam claramente um lugar especial entre as exigências culturais. Ninguém dirá que elas são importantes para a vida como o domínio das forças naturais e outros fatores que ainda veremos, mas ninguém as porá em segundo plano, como coisas acessórias. (FREUD, 1929, p.38)
Partindo desta citação de Freud, podemos pensar em um aspecto que, a meu ver, é um dos mais importantes no que se refere ao processo que permite que Laura chegue à loucura. Trata-se da beleza.
A beleza está, durante todo o conto, num lugar de incômodo para Laura. Laura se sente inferior, por isso não almeja (ou declara não almejar) a beleza: “‘Não tem importância que eu engorde’, pen­sou, o principal nunca fora a beleza.”. Por outro lado a beleza da rosa a incomoda: “Mas, sem saber por quê, estava um pouco constrangida, um pouco perturbada. Oh, nada demais, apenas acontecia que a beleza extrema incomodava.”.
Perturbada com a beleza das rosas que “pareciam artificiais”, Laura entra em profunda confusão. Há, na realidade, uma luta entre o seu Id, que quer as rosas, que quer o prazer de admirá-las e o seu Super-eu, severo, que não lhe permite um pouco de prazer:
“Mas a atenção não podia se manter muito tempo como simples atenção, transformava-se logo em suave prazer, e ela não conseguia mais analisar as rosas, era obri­gada a interromper-se com a mesma exclamação de curio­sidade submissa: como são lindas.”
Laura se vê, então, em um embate entre ficar com as rosas e se permitir este prazer ou entregar as rosas a Carlota. No meio deste embate Laura se utiliza de argumentos para ficar com as rosas sem se sentir culpada:
O fato de não durarem muito parecia tirar-lhe a culpa de ficar com elas, numa obscura lógica de mulher que peca. Pois via-se que iam durar pouco (ia ser rápido, sem perigo).E mesmo — argumentou numa última e vitoriosa rejeição de culpa — não fora de modo algum ela quem quisera com­prar, o vendedor insistira muito e ela se tornava sempre tão tímida quando a constrangiam, não fora ela quem quisera comprar, ela não tinha culpa nenhuma.
Porém o seu Super-eu, que tudo vê, não lhe permite ficar com as rosas, visto que, “sabe” que ela não é digna de tanta beleza, ela não possui o Falo e nem conseguiu um filho para substituir o Falo inexistente.  Sobre este sentimento de culpa Freud explica:
O sentimento de culpa, a dureza da Super-eu, é então o mesmo que a severidade da consciência, é a percepção que tem o eu Eu de ser vigiado assim, a apreciação da tensão entre os seus esforços e as exigências do Super-eu, e o medo ante essa instância critica (subjacente à relação inteira), a necessidade de castigo é um expressão instintual do Eu, que por influência do Super-eu sádico tornou-se masoquista, ou seja, emprega uma parte do instinto para destruição interna nele presente para formar uma ligação erótica com o Super-eu.(FREUD, 1929, p.83)
Com o excessivo sentimento de culpa que rodeia Laura, ela não consegue atingir a felicidade. A civilização é, para ela - que não possui o Falo, que não possui um filho, e que se sente inferior, por isso, submissa – muito pesada. Laura, na verdade, almeja ser a rosa, possuir sua beleza. Laura identifica, na rosa, o seu Falo a tanto almejado. No entanto, ela o perde novamente, perde o que nunca possuíra, “não eram mais suas, como uma carta que já se pôs no correio!”.
 Laura não poderia suportar mais esta interdição, “E as rosas faziam-lhe falta. Haviam deixado um lugar claro dentro dela.” Laura, que não resolveu seu Édipo como deveria, se “tornando” o pai, tenta resolver agora, tardiamente e patologicamente, se tornando a rosa, imitando-a. Laura, que não pode ter prazer na civilização, se refugia, se afasta da civilização afinal: “...o afastamento dos demais é a salvaguarda mais disponível contra o sofrimento que pode resultar das relações humana”(FREUD, 1929, p. 21). Ela vai ao extremo, se refugia na loucura, não pertence mais à civilização, o Super-eu não dita mais as regras. Retornara ao estado de “um barco tranquilo que se empluma nas águas”, à “terrível independência”, à “falta de alerta de fadiga”. Laura deixou de ser uma ‘senhora distinta’ e voltou para a “extravagância”. Laura se tornou novamente “luminosa e inalcançável” e agora permanecia “sentada no sofá sem apoiar as costas, de novo alerta e tranqüila como num trem. Que já partira.”.

 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

·       LISPECTOR, Clarice. A Imitação da Rosa. In Laços de família. Disponível em: http://claricelispector.blogspot.com.br/2008/07/imitao-da-rosa.html
·       NASIO, J.D. Édipo – o complexo do qual nenhuma criança escapa. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.
·       FREUD, Sigmund. A dissolução do complexo de Édipo (1924). In Jornal de Psicanálise, Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, V. 33, N60/61, PP. 483-9, dezembro de 2000.
·       FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Tradução Paulo César de Souza, - 1° ed. – São Paulo: Penguin Classics Companhia da Letras, 2011.


Mais um trabalho MB


Neste texto, tentarei expor da forma mais objetiva possível, a subjetividade de um personagem caricato das ruas de Salvador, que “causou” muitas confusões em sua breve jornada pelas ruas soteropolitanas. Trata-se do Superoutro, personagem que Edgar Navarro imaginou como um revolucionário lunático que seguia seus instintos e por isso foi condenado pela civilização a qual iremos discutir sobre sua sanidade e subjetividade nas próximas linhas nesta primeira parte do trabalho.  
Capital baiana, final da década de 80, cenário político conturbado e um pleno cenário para a “aparição” de um personagem fictício, mas que é tão real quanto nós. A sua subjetividade exposta em forma de atitudes diante de uma sociedade que para a sua plena existência necessita reprimir o real teor instintivo, chega a ser agressiva em determinados momentos do filme.
Trabalhar a subjetividade de um personagem tão peculiar como o “super-outro”, requer uma tarefa de contextualização histórica a partir de uma visão de sociedade que passa por um momento crítico no que diz respeito a exclusão e desigualdade social. Por vários momentos  o personagem se depara com dificuldades cotidianas comuns a quem viveu naquela época e ao analisarmos a subjetividade deste notório personagem, notamos que há uma linha tênue entre o objetivo e o subjetivo, que se confundem numa série de atitudes que põe em dúvidas a sua lucidez. Lucidez(ou falta dela), que quando comparada numa analise minuciosa as normas cultas da sociedade onde ele está inserido, faz-se refletir sobre não só sua sanidade mental, mas também a sanidade mental da própria sociedade. Como se de repente ele despertasse de um sono profundo, ou se desvinculasse de uma alienação imposta por uma metrópole rodeada por outdoors e modelos de vida a serem seguidos, Superoutro começa sua jornada antes de se descobrir como o super herói revolucionário que há dentro de cada um de nós. Incomodando e tentando de todas as formas chamar atenção, ele é mandando a um manicômio e considerado um esquizofrênico devido aos seus “delírios”. Obviamente ele não se identifica com tal diagnóstico e facilmente escapa do seu exílio e sai pelas ruas de Salvador colocando pra fora todos os seus instintos e vontades em prol de satisfazê-los a qualquer custo. Não seria diferente se cada um de nós resolvesse encarnar um personagem (ou abandonar este personagem civilizado o qual carregamos para viver em sociedade) e nos deixássemos levar pelos instintos mais reprimidos, a custo disso teríamos que nos acostumar a viver em tempos de barbárie e nos restaria passar a viver isolados, bem como nosso personagem em análise. Em seu livro “O Mal-estar na civilização”, Freud caracteriza a civilização como “a soma integral das realizações e regulamentos que distinguem nossas vidas das de nossos antepassados animais, e que servem a dois intuitos, a saber: o de proteger os homens contra a natureza e o de ajustar seus relacionamentos mútuos”. Natureza esta que ele menciona, se trata não só da natureza como a conhecemos, mas  o próprios instintos naturais do homem, que por conta das privações do superego permanecem “adormecidos” no inconsciente. Esses instintos levam  o homem a ser primitivo, e a perceber um enorme incomodo em viver em comunidades e se relacionando com outros homens. Assim, podemos concluir que em comunidade por incrível que pareça, o homem se sente menos poderoso, pois a sua autonomia é estritamente dependente da autonomia de um determinado grupo ou comunidade. No caso de nosso personagem, ele já nasceu numa comunidade e inserido nas suas regras e convivendo mutuamente com pessoas que lhe são de seu agrado, ou não. Em momentos no filme, podemos notar a presença de um agente importante nesse contexto, que talvez sem ele nos tempos atuais fosse impossível a convivência em sociedade. A força representada em forma de pessoas, a polícia, que tem como tarefa manter a “ordem” e a segurança das pessoas, pois sem esta força repressora de um instinto coletivo, nos deixaríamos levar pelos nossos instintos individuais e sem limites nosso instinto de destruição seria letal a todos. Voltando ao contexto em que nosso personagem está inserido, podemos perceber o quão reprimido ele foi desde o começo do filme, e não podemos deixar de notar o quão livre ele foi a ponto de expor sua subjetividade de forma, às vezes, até engraçada em determinados momentos.

O sono de uma sociedade que finge dormir bem.
Em sua frustrada tentativa de tirar a sociedade do seu sono de conforto, o super herói encontra seu primeiro obstáculo diante da imposição da ordem de proteção ao próprio sono, quando ele entra num prédio aos berros e quebra uma vidraça jogando uma grande lata de lixo. Mas que sono seria este que ele queria atrapalhar? Não foi meramente coincidência que ele estava agindo daquela forma na madrugada. O sono qual ele se referia, era um sono da sociedade, que dormia diante dos fatos que aconteciam, dormiam para uma realidade a qual ele enxergava e se incomodava. Durante todo o filme, nosso personagem vai de encontro às “normas” cultas de um convívio em sociedade e sofre suas consequências punitivas. Ele vai de encontro a essas normas em vários momentos do filme, seja dançando livremente no meio da rua, defecando na praia e posteriormente fazendo uso de sua “obra” e presenteando o condutor de um carro que passeava pelas ruas da barra na ocasião. O filme possui uma narrativa que mostra o cotidiano de uma pessoa que na maioria das vezes passa despercebido aos olhos de quem esta situado numa civilização como a nossa, um “doido de rua”, como costumamos falar, mas que vive sua realidade assim como as pessoas ditas “normais” na sociedade, sendo que vivem a margem de tudo isso por não estarem inseridos num padrão de vida imposto pela própria sociedade onde vivem. Talvez  o filme tenha essa mensagem subjetiva quando a primeira fala se reporta ao sono em que a sociedade vive, e a sua luta para permanecer “dormindo bem” nele. Essa luta pode ser a causadora de um mal estar que nos acompanha desde que optamos por viver em comunidades, reprimindo os instintos e sobrevivendo em conjunto com outros humanos. De fato, ele consegue “acordar” em partes uma parcela de pessoas que se atentaram a ele, mas ele se viu diante de uma realidade a qual a civilização está fadada a aceitar, realidades melhor dizendo, quando se trata de influências sociais como religião e política, as quais serão melhores abordadas na segunda parte deste trabalho.
  
O “Supereu coletivo” contra  o “Superoutro individual’.
Coletivamente, existe um “supereu” ou superego, que nos motiva não só a permanecer na conduta certa, mas também a nos ater de vigiar quem foge a essa conduta. Freud diz em seu livro que “A substituição do poder do indivíduo pelo poder de uma comunidade constitui o passo decisivo da civilização”, assim, nosso personagem se via dono de seu próprio poder de ser livre, tomava suas decisões baseado-se nas suas imediatas necessidades, e não se encaixava numa sociedade civilizada. E esse impulso de liberdade para Freud “é dirigido contra formas e exigências específicas da civilização ou contra a civilização em geral”. O sentimento coletivo de vigiar quem está fora desta conduta civilizatória será melhor discutido na segunda parte do trabalho, quando entram os conceitos de Foucault. Mas esta luta do Supereu coletivo conta um superoutro individual não se resume somente ao personagem de Navarro, pode-se percebê-la em cada desentendimento entre membros de uma comunidade, ou mesmo de um indivíduo para com a sociedade. O “superoutro” pode muito bem ser representando como o nosso ID (nosso lado instintivo aos olhos de Freud) e a sociedade como o nosso Superego, e paradoxalmente enxergamos no “outro” coletivo algo que temos de individual em nós mesmos, que internalizamos desde o berço.

Autor do texto: Luis Fernando Fróes de Matos

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Um trabalho com conceito MB


Severino a Joaquim

É com certa soberba que te declaro, meu caro Joaquim, que acabei ler o texto que você me recomendara, e não me arrependi. Muito embora, confesso, tenha havido momentos de enfado. Mas, em linhas gerais, o texto é muito bom e creio poder explicar muito das minhas ações no passado e atuais, assim como de outras pessoas, que fiquei sem entender.

Em época de adolescência, meu pai me obrigava muito a ir à igreja, me contrariando, pois o que eu queria mesmo era brincar com meus companheiros na rua. Impôs-me a felicidade dele em detrimento da minha, que era correr pelas ruas com meus camaradas. Nesse sentido, passei a odiar a igreja (a religião), desviando o ódio que eu tinha do meu pai para deus. Ora, se meu velho, além de considerar deus como seu legítimo pai, ainda dizia que eu também era filho de deus, tratei ambos com hostilidade, embora este com maior frequência do que aquele. Tenho aversão, portanto, a religiões, pois não gosto do meu pai lá sentando em seu trono, imponente como uma águia imperial sobrevoando em um campo de centeio.

Mudando de assunto, ontem, quando eu estava voltando para casa, tive uma discussão com o cobrador do ônibus em que eu viajava. Enfureci-me de uma forma tal, que agi como se algo houvesse tomado controle do meu corpo e mente, numa possessão psicossomática. Ao chegar em casa, escrevendo esta carta, me ocorreu que minha reação no ônibus não foi nada mais que a expulsão de sentimentos que são constantemente reprimido pela sociedade.  Os outros passageiros, contudo, me tacharam de louco, e, à minha revelia, os que não falaram, disseram decerto um monte de coisas a meu respeito. Sem conhecer a causa da minha súbita agressividade, cada um interpretou conforme sua ignorância.

A vida em sociedade é, com efeito, cheia de coisas desagradáveis, e quanto mais você estuda, se conscientiza dos matizes dos males do convívio humano e do próprio humano, mais essas coisas lhe batem a porta, invadindo seus umbrais. Desse modo, quanto mais você estuda, há de reconhecer, mais precisa fugir da realidade, não acha? Desse modo, passei a usar alguns alucinógenos (não fale isso a Lucena, a minha querida e etérea Lucena, que tanto amo). Primeiramente pensava que eu os usava por usar, pelo simples gosto de ficar doidão ou “brisado”. Agora, no entanto, penso ser algo mais além. Pois bem, lendo o texto, inferir que se trata mesmo da fuga da realidade, dum lugar onde haja maior sensibilidade por parte do fugitivo. Quando penso na distância em que me separa (tanto a física como as minhas)de Lucena, dos conflitos em casa e das mais diversas dificuldades, eu me aplico. Todavia, não há meios de ficar fugindo a toda hora. Mais cedo ou mais tarde, a implacável realidade nos jogará um balde de água fria.

A impossibilidade duma sociedade estável, no sentindo do fim da agressividade humana, comunista ou socialista, é pertinente, pois sempre haverá coisas que um homem poderá invejar no outro: um abraço, um olhar, um beijo. Sempre haverá, portanto, ricos e pobres: ricos no afeto, pobres no afeto;  ricos no amor... pobres no amor. E isso será sempre um dos motivos da instabilidade humana, que nem a ajuda humana-abstrata da igreja ou material e moral de qualquer forma de sociedade sanará. Por isso, meu irmão, sempre haverá agressividade em sociedades capitalistas e comunista, esta última, acredito, em um número menor, pois a propriedade privada, um dos grandes motivo das desavenças humana, não existirá. Ademais, o desenvolvimento das forças produtivas foi o que construiu e modificou a existência humana. Logo, se temos um modo de produção mais humano e igualitário, teremos uma sociedade melhor.

Quem, meu amigo Joaquim, nunca pensou em dar cabo da vida? Há alguns anos um amigo meu me falou na vontade dele de se suicidar. Fiquei estarrecido, evidentemente. Não entendia por que aquele sujeito queria abrir mão de viver. Agora, entretanto, eu o entendo. Vivia (e vive) em condições miseráveis, seu pai um bêbedo, seu irmão extraviado pelo mundo do crime (agora morto). A implacabilidade externa e o embate consigo mesmo lhe era, e talvez ainda seja, insuportável. Todavia, ele está bem e optou por continuar vivendo. 

Afinal, Joaquim, aquela vez que te empurrei de propósito pela ladeira abaixo... Que me diz? Sou um demônio? Pedi-lhe desculpas, naturalmente, mas foi um ato de pura maldade. Talvez, quem sabe, não seja um impulso reprimido meu? Quem sabe eu não já queria fazê-lo há muito por você ter saído com a Lucena daquela vez e me deixado a ver navios? E esse sentimento só se revelou ali, no alto daquela ladeira íngreme. Sou malvado por natureza ou a sociedade me degenerou? Diz-me lá! Tenho certeza que, com sua inteligência, dirá que a sociedade tem em parte culpa no caso, mas o homem também tem seu quinhão de maldade, que é domado pelo didaticismo de anjo que nos é ensinado. Vá lá, sou um patife... ou demasiado humano.

Um comportamento interessante, que quando paro para pensar eu logo mergulho em profundas reflexões, é o comportamento em grupo, de massas. Lembra-se daquele carnaval? Quando nós íamos pro carnaval, não sei se lhe acontecia o mesmo, era como se eu, o Severino que todos conhecem, se transfigurasse noutro ser, modelado pela massa. Como se uma alma ancestral, impulsiva e irracional, tomasse lugar em meu corpo. Eu seguia as variações das pessoas que me rodeavam, ficava propício a fazer coisas que jamais faria sozinho. 
Lembra-se como se deu aquela confusão? Não sei o porquê, mas quando dei conta de mim, já estava em cima do sujeito, dando-lhes pontapés. Não o conhecia, não era meu desafeto nem nada. Hipnotizado pelas pessoas que o pisoteavam, chamando-o de uma sorte de palavrões, eu segui a onda. Que acha disso? Talvez, em multidão, seja um momento mais propício para a liberação de nossa agressividade reprimida, com a ajuda dos atos e pensamentos que se juntam num só. Enfim, acho que multidão tem sua aura sobre o indivíduo, de modo que o superego da cada um enfraquece e suje um, o superego coletivo, que os domam e os regem. 

Pior do que o sentimento de culpa de ter batido num sujeito sem ao menos conhecê-lo é ir pro carnaval sem pegar nenhuma pequena, hem? A zombaria é certa. “Pegue! Beije! Coma! Goze!”, ordenam. Quem não obedece, cai numa prostração, sente-se um inútil. Como não se lembrar do companheiro Anderson? Sequer deu um beijinho em ninguém e virou objeto de chacota. Caiu numa tristeza... Mas, quer saber, sabe por que ele não pegou ninguém? Porque anda com roupas insípidas! As garotas gostam roupas extravagantes, relógios, correntes, enfim, o “ter”. Hoje, mais que ter, o sujeito tem que “parecer”.  Mesmo que o sujeito não tenha, ele parecendo que tem já é uma grande vantagem. Por isso, meu camarada, naquela época vestíamos aqueles trajes esdrúxulos, com várias marcas famosas, correntes e sapatos caríssimos. Precisávamos parecer. Nosso ser era jogado para segundo plano. Aquela garota que ficou comigo, por exemplo, acha mesmo que ficou comigo pelo que eu era, pelo que eu tinha ou pelo o que eu parecia ter? A primeira opção é logo descartada, vai concordar; a segunda tangencia, mas acho que ela ficou comigo baseando-se na terceira opção. O parecer hoje, de certa forma, fundiu-se com a realidade de tal modo, que as barreiras que separam um do outro é muito tênue. Estamos na sociedade do espetáculo, onde cada esquina e uma atração à parte.

Acho que já escrevi demais, não é, camarada? Enfim, não se esqueça de dizer que mando um beijo a Lucena. Diga-lhe que, quando penso nela, minha alma dança como uma bailarina. Que estou triste por não poder romper esta distância que nos separa, de você, meu amigo, e dela, minha amada. Outros objetos de tristeza, além da distância, é ela, que me ignora, e eu, que sou o caos em pessoa. Não se admire se algum dia em mim nascer-me um universo, meu caro Joaquim. 

Do seu grande amigo e irmão

 Severino de Maria

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Novo cronograma do componente


Novo cronograma do componente

18 - Discussão do texto DELEUZE, Gilles. Entrevista sobre O anti-édipo. In: Conversações. São Paulo: Editora 34, 1992, p. 23 a 36. Apresentação e discussão de vídeos com Guattari e Deleuze.
25 - Discussão do texto PEIXOTO Jr. Carlos Augusto. Sexualidades em devir. In: Singularidade e subjetivação. Ensaios sobre clínica e cultura. Rio de Janeiro, Editora 7 Letras/PUC Rio, 2008, p. 113 a 133.

MARÇO

4 - Discussão do texto ROLNIK, Suely. A crise na subjetividade. In: Cartografia sentimental – transformações contemporâneas do desejo. Porto Alegre: Sulina/Editora UFRGS, 2011, p. 95 a 110.
11 - Discussão do texto ROLNIK, Suely. Deleuze, esquizoanalista. Disponível em http://revistacult.uol.com.br/home/2010/03/deleuze-esquizoanalista/
18 - ciclo de palestras com convidados externos
25 - ciclo de palestras com convidados externos

ABRIL

1º - entrega dos trabalhos finais
8 – entrega de notas, trabalhos e avaliação do componente

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Anticristo

Pessoas, eis o link do texto que li em sala sobre o filme que assistimos

http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,lars-von-trier-exorciza-demonios-pessoais-com-anticristo,425496,0.htm

domingo, 3 de fevereiro de 2013